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Tokenização de crédito: quem controlar o trilho do funding vai ditar as regras do fomento

há 1 hora
4 min de leitura

Mulher analisando dados financeiros no monitor.

Esqueça, por um momento, a palavra "cripto". Ela atrapalha mais do que explica. Tokenização de crédito é, no fundo, uma discussão sobre algo bem mais antigo e bem mais prático: quem coloca o dinheiro, quem tem o ativo e quem fica no meio. Quando o trilho muda, muda quem lucra em cada trecho do caminho. E por isso o tema merece a atenção do empresário de fomento, mesmo que ele nunca pretenda emitir um token.

O que está acontecendo (sem jargão) Tokenizar é criar uma representação digital de um direito, registrada em blockchain, que carrega regras e histórico de forma auditável. No crédito, o direito é um recebível: duplicata, recebível de cartão, CCB.O recebível continua sendo o mesmo. Com contrato, lastro e sacado. O que muda é a forma de estruturar, distribuir e acompanhar.

A AmFi, plataforma de São Paulo, fornece infraestrutura para que fintechs, factorings e FIDCs tokenizem suas carteiras, segundo a Capital Aberto. Uma fintech de antecipação de recebíveis para PMEs levantou R$ 15 milhões em debêntures pela plataforma, com duplicatas como lastro, segundo o Finsiders. Outra parceria mira R$ 100 milhões em recebíveis de cartão e duplicatas tokenizados, todos validados em entidades registradoras antes de chegar a mais de 1.500 investidores e parceiros, também segundo o Finsiders.

Sobre números de eficiência: a própria AmFi estima uma redução de custos da ordem de 30% nas operações de crédito privado. É uma estimativa da empresa, não de terceiros. Leia como tese de mercado, não como garantia.

O dado que muda a conversa Precisamos chamar a atenção para algo que já deveria estar no radar de todo mundo: pela primeira vez, o mercado de capitais superou os bancos na oferta de crédito para empresas no Brasil.

Se o funding migra do banco para o mercado de capitais, a pergunta seguinte é inevitável: quem vai intermediar esse acesso? Hoje, a resposta passa por estruturas como FIDCs e securitizadoras. A tokenização propõe um caminho alternativo, mais direto e mais granular. Os defensores do modelo chegam a criticar os FIDCs como estruturas engessadas para certos tipos de recebível. É um lado da história, e você não precisa concordar com ele para entender o que está em jogo.

Três cenários para os próximos dois anos Não temos bola de cristal, mas temos hipóteses que vale discutir na mesa da diretoria. Cenário 1: o trilho paralelo. A tokenização cresce ao lado das estruturas tradicionais, atendendo nichos específicos e operações menores. O fomento que entende o assunto usa quando fizer sentido. Cenário 2: o investidor pede transparência. Mesmo sem migrar, o investidor acostumado a ver rastreabilidade e dados em tempo real passa a exigir isso de todo mundo. Quem não consegue mostrar a carteira com clareza perde acesso a funding, token ou não token. Cenário 3: a desintermediação. Plataformas conectam investidor e originador cada vez mais diretamente, e a empresa que só "carregava" a operação perde espaço. Aqui está o risco real: ficar reduzido a uma peça substituível da cadeia.  O que muda entre eles é uma única coisa: a posição da sua empresa na cadeia.

Por que o lastro é a nova cadeira à mesa Aqui vai a tese central deste artigo. Em um ecossistema em que a tecnologia democratiza o acesso ao investidor, o que continua escasso é o recebível bom, bem originado e bem monitorado.Plataforma sem originação é uma estrada sem carro. E originação de qualidade, com conhecimento de cedente, de sacado e de setor, é o que o fomento comercial sabe fazer há décadas. Ou seja: quem sabe originar e monitorar tem poder de barganha. Quem apenas repassa, não. A tokenização pode ser a maior oportunidade de valorização do trabalho do fomento, ou o caminho mais rápido para a irrelevância. Depende de qual lado da mesa você escolhe ocupar.

O contraponto: tecnologia nova não perdoa disciplina velha ausente Falar só de oportunidade seria desonesto. Três alertas: Token não melhora recebível ruim. Se o lastro é frágil, o sacado é inadimplente ou a originação é descuidada, a tokenização apenas distribui o problema mais rápido e para mais gente. Em ciclos de euforia no crédito privado, executivos do setor relatam que os defaults dos últimos anos vieram, em boa parte, de novos players que quiseram "surfar a onda". O relato é do segmento de CRIs.  A regulação ainda está se acomodando. Hoje, as ofertas de tokens no país se apoiam principalmente na Resolução CVM 88, de 2022, que trata do crowdfunding de investimento, conforme a Capital Aberto. A própria imprensa especializada destaca que o mercado cresce enquanto aguarda avanços regulatórios. Qualquer movimento exige assessoria jurídica atualizada e acompanhamento de CVM e Banco Central.  O investidor precisa entender o que compra. Educação do investidor deixa de ser "tema de marketing" e vira questão de reputação do segmento inteiro. 

Cinco perguntas antes de qualquer decisão Use como roteiro de reunião interna: • Se um investidor pedisse hoje o histórico detalhado da minha carteira, em quanto tempo eu entregaria?  • O meu lastro é rastreável do início ao fim? Está registrado onde deveria? • Qual é o meu diferencial de originação que uma plataforma não consegue replicar?  • Quem são os meus parceiros de funding hoje, e o que acontece se eles mudarem de modelo?  • Quem na minha equipe acompanha esse tema? Se ninguém, essa é a primeira decisão. 

O movimento certo: entender antes de decidir Nem toda empresa precisa tokenizar em 2027. Mas toda empresa precisa chegar à próxima conversa de funding sabendo do que se trata. O custo de estudar é pequeno. O custo de ser surpreendido por uma mudança de trilho é alto. O caminho mais sensato costuma ser simples: aprender, conversar com quem já fez, testar em escala pequena se fizer sentido e manter intacta a disciplina que sustenta a credibilidade do segmento.

O Sinfac PR existe para essa conversa Representar um segmento é, também, ajudar o segmento a enxergar o que vem antes que chegue. Há mais de três décadas, o Sinfac PR conecta empresas de fomento, produz conhecimento e defende o setor, e é exatamente isso que um momento de transição exige: informação de qualidade e gente boa por perto.

Quer acompanhar de perto o futuro do funding? Associe-se ao Sinfac PR. 

Fontes consultadas

• Capital Aberto, "Tokenização dispara no Brasil enquanto aguarda avanços na regulação": capitalaberto.com.br/regulacao/2026/05/tokenizacao-cvm-regulacao

• Finsiders Brasil, "CredMei capta R$ 15 milhões via debêntures pela AmFi": finsidersbrasil.com.br/?p=204830

• Finsiders Brasil, "AmFi e Mercado de Recebíveis anunciam parceria para tokenizar ativos": finsidersbrasil.com.br/noticias-sobre-fintechs/amfi-e-mercado-de-recebiveis-anunciam-parceria-para-tokenizar-ativos/

• Finsiders Brasil, "AmFi recebe aval da CVM para levar token de recebível ao varejo": finsidersbrasil.com.br/reportagem-exclusiva-fintechs/amfi-recebe-aval-da-cvm-para-levar-token-de-recebivel-ao-varejo

 
 
 

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